quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Dia dos Pais

Essa é uma linda foto, registrada à exatos 3 anos... Ela retrata muito bem o que tem acontecido. Um pai que com certeza não deixou de acompanhar àquela que é fruto do nosso amor. São mais de 1.000 dias sem você, e em nenhum deles ela deixou de pronunciar a palavra "papai". Às vezes com lembranças, às vezes com perguntas, outras em oração... Mas nada faz ela sorrir tão lindo quando eu digo "ah Renatinha, agora você fez igual ao seu pai". O tempo foi curto, foi pouco aos nossos olhos, mas o suficiente para te deixar marcado no coração e nas lembranças da nossa filha. Ela gosta de bolacha picada na xícara de café igual você, não gosta de passar creme no corpo, ela acha uma meleca igual você. A briga para passar protetor solar é a mesma que eu tinha com você, adora uma piscina, do mesmo jeito que você fazia. Sua cor preferida é a rosa, mas ela intercala com o seu azul. Não gosta de estudar igual você, é uma briga a tarefa de casa, mas aprende tudo na primeira vez. Seria a sua companhia para cinema, ela adora um filme igual você. E mais, dorme tarde e acorda tarde, quem será que era assim... Ela faz cartões de dia dos pais na escola e mostra para todos com alegria, faz apresentação e diz que você está vendo e"la cantar, e eu acredito que sim. Você deve saber, que ela conversa com você, é claro, pois você escuta ela. Ela sabe que o poço de paciência sempre foi você, até por isso ela disse esses dias "papai ajuda a mamãe a ter paciência, e eu também!" rsrs... a gente se dá bem, você sabe disso... pois você é ainda nosso termômetro, nosso equilíbrio, nosso amor, àquele que nos faz olhar uma para a outra e enxergar você! Feliz dia dos Pais Renato Costa Sobrinho!!!!

Assim como nos outros anos nós levamos flores, dentre elas você escolheu um girassol. Nesse ano pela primeira vez não fomos sozinhas, o vovô Ivo pediu para ir junto. Você como sempre faz uma algazarra... quer plantar, arrancar as secas, jogar água. Também deixamos lá um dos cartões que você fez na escola. Minha filha, nós vivemos de verdade esses momentos, nada do fazemos ali é em vão, essas demonstrações de amor chegam lá onde o papai está e sempre chegará.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Nossa primeira viagem sozinhas

Acostumar com as coisas boas da vida é fácil... e você minha filha tão pequenina já sabe o que é bom... Adora viajar... Tenho certeza que na sua memória ficaram registradas as nossas viagens com o papai, a gente gostava bastante e não perdíamos a oportunidade.
Não deixamos de passear nesses 2 anos e 8 meses, fizemos sim algumas viagens, sempre acompanhadas de pessoas amadas. Porém deixamos de fazer algumas coisas ou passeios por falta de companhia.
Confesso que isso sempre foi algo que me incomodou, a dependência dos outros para termos momentos felizes e fazermos como era antes. Mas não me sentia segura ainda para viajarmos apenas eu e você.
Mas só vencemos nossos medos e dificuldades enfrentando-os frente à frente... Nessas suas férias de julho/2017 nos divertimos bastante, ficamos muito em casa como você pediu, vimos muitos filmes... quase uma overdose e mãe e filha... rsrs  Mas você também queria viajar. Olhei várias passagens aéreas, porém em cima da hora tudo muito caro. Então decidi um lugar mais perto, que ainda não conhecíamos, Ubatã, um thermas em Conceição das Alagoas, iríamos então de carro, uns 160km da nossa casa.
Bom, a estrada é algo que agora causa temor na mamãe, mas me animei porque a maior parte seria duplicada e isso que acalmava.
Não foram muitos dias, fomos em um domingo cedo e voltamos na terça à tarde, mas foi ótimo, muito melhor e mais tranquilo do que pensei... Você com seus 5 aninhos parecia uma moça, não deu um pingo de trabalho na estrada me enchendo de orgulho.
Um lindo lugar, uma proximidade gostosa com a natureza, piscinas quentinhas, comida gostosa e uma menininha que não sabia o que fazer com tanta energia.
Quando chegamos estava cheio mas à tarde muitos já foram embora. Você parecia uma peixinha, não parava de nadar um minuto, se tem uma coisa que você é seu pai escrito, é essa relação com a piscina. O jeito de se comportar diante da água... kkkkkk... igualzinho... e a trabalheira para passar protetor solar... Aff... a diferença é que o papai branco demais ficava igual camarão, agora você pituquinha pega uma cor... fica uma moreninha linda!
A minha responsabilidade com relação à você ficou ainda maior nesses dias, mas meu coração ficava leve em ver a sua alegria por estar ali.
Ainda no domingo à tarde, estávamos só eu e você na piscina, e você me perguntou assim: "mamãe, você está sofrendo?" Como assim sofrendo? Eu te perguntei... "Assim mamãe quando a gente sente saudade de alguém" Ah entendi... você está sofrendo filha? "Se o papai tivesse aqui mamãe seria bem melhor!"  Ah princesa com certeza seria bem melhor... Nossos corações suportam essas conversas, graças a Deus, não ficamos tristes...ficamos saudosas!
É óbvio que não é fácil ver famílias completas (pai, mãe e filhos) passeando e se divertindo juntas... Mas nós também conseguimos nos divertir e conseguimos colocar para fora nossos sentimentos e uma conseguiu suportar os momentos da outra.
Na segunda pela manhã estávamos brincando na piscina, você era uma sereia, rimos até... cantamos Trevo de 4 folhas... ah você sempre gostou de cantar... e você me disse que a gente nunca estaria sozinha... pois o papai sempre estaria com a gente. Ah não demorou muito para ouvir o assovio do passarinho amarelo, logo o encontramos em um coqueiro próximo à piscina que estávamos. Ali ele cantou, até que veio bem pertinho da piscina para brincar com a gente... Não era como a gente queria, mas agradeci muito à Deus porque o papai realmente está sempre perto da gente.
Rapidinho você fez amizade, a Sophia, de Americana/SP, a Melissa e o João Miguel de Franca/SP. Aí o passeio ficou mais divertido né... nada como crianças.
É claro que é impossível não falar da nossa história, discretamente as pessoas curiosas para saber como estávamos sozinhas, só você e eu. Mas é bom conhecer pessoas novas e ver que todos tem as suas dificuldades, as suas ausências, as suas dores.
Agora na terça, enquanto tomávamos café da manhã, você me deixou sem palavras. Você ficou reparando um moço que brincava com seus filhos no dia anterior. E então você falou assim, "mamãe aquele homem serve para ser meu novo pai"  por que filha? "porque ele é carinhoso e brincalhão"  essas são as suas exigências... rsrs  Filha mas ele tem uma esposa, aquela mulher sentada na mesa e a mãe dos filhos dele. "Ah mamãe é impossível quando a gente quer uma coisa né?"  Como assim impossível filha? " É que eu queria um pai de verdade agora" Aì meu Deus... abracei você e te falei que infelizmente as coisas não acontecem na hora e do jeito que  agente quer. Então você disse que ia rezar muito para Deus trazer um novo pai para nós.
Muita gratidão à Deus por aqueles dias, além de muito bom foi importante para nós duas. Claro que você não queria vir embora né... queria ficar ali só o restinho do mês... e ainda era dia 01/08... kkkk
Mas vamos voltar ali, e mais, vamos fazer ainda muitos passeios eu e você minha flor, minha princesinha, meu mais belo sorriso, meu trevo de quatro folhas... Amo você ainda mais!










sábado, 6 de maio de 2017

As alianças da mamãe

Meu sonho era usar uma aliança, uma aliança grossa para todo mundo ver... rsrs
Quando ainda éramos namorados o papai me deu um par de alianças em um natal... a idéia éramos ficar noivos... não deu certo, o vovô Neuber não deixou 😭
Quando resolvemos nos casar mandamos então fazer novas alianças... lindas, grossas, e a minha tem 3 brilhantes... rsrs
Ficamos noivos no dia 15/03/2009 em uma missa na paróquia São Judas, depois fizemos um churrasco na casa do vô Faustino...
Ah quanta alegria eu tinha em ter aquela aliança na mão... Três meses depois a trocamos de mão para nos casarmos. A mamãe perdeu os brilhantes algumas vezes e o papai perdeu a aliança uma vez, foi lá em Balneário Camboriú, ah foi só ele entrar no mar e já voltou sem ela...
Sempre que pudíamos renovávamos nossos votos de amor, tínhamos mania de tirar a aliança para lavar a louça e todas as vezes que um encontrava a aliança do outro colocávamos na mão do outro e dizíamos: "recebe essa em sinal do eu amor e da minha fidelidade, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém!"
No dia do acidente do papai, o vovô Ivo trouxe a aliança dele e me entregou, estava arranhada com marcas fortes e ela se encaixou perfeitamente no meu dedo ao lado da minha aliança.
Ali ela ficou por 2 anos, 3 meses e 20 dias... De vez em quando você perguntava porque eu usava as duas, até que um dia você me disse que eu não tinha que usar elas mais porque o papai não estava mais aqui...  como sempre você sendo uma porta voz, pois não tem conhecimento para falar tais palavras... Além disso você mais uma vez me encantuou, pedindo irmãos e enquanto ainda é pequena... ah minha menina, te confesso que isso mexeu ainda mais comigo e então senti que estava na hora de tirá-las.
Fiz um anel para usar no lugar da minha aliança, nela tem cinco pedras (4 brilhantes e 1 safira) que simbolizam nossos 5 anos de casamento, a safira é você minha doce menina, e o azul é a cor preferida do papai. Uma forma que achei de deixar marcado em ouro nossa linda história de amor.
Então decidi que no dia 15/03/2017 iria tirá-las, dia que completaria 8 anos que havíamos ficado noivos.
Comprei 5 belas rosas vermelhas e fui ao jardim do papai. Lá eu o agradeci por tudo o que vivemos, ah minha filha como fomos felizes... chorei um pouco, rezei... o tempo estava fechado e quando tirei as alianças o sol se abriu, fiquei muito emocionada e além disso veio bem pertinho o passarinho amarelo, como se estivesse a me dizer que estava de acordo, ah como isso me fez sentir leve... uma sensação de que fiz na hora certa e por isso não estava doendo.
A mamãe te contou, te mostrou tudo e te disse que as alianças são suas para um dia quem sabe você poder usá-las e ser tão feliz como nós fomos!


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Aniversário do Papai

Sempre gostei de comemorar os aniversários, desde os dos meus pais, irmãos, o meu... o aniversário do papai Renato nunca passou em branco, mesmo quando ainda só éramos namorados. Depois que nos casamos a mamãe comemorou todos os anos, sempre reunindo a famílias e alguns amigos.
Me recordo de um em que inventei fazer uma surpresa lá no quiosque, mas ele era muito esperto e acabou descobrindo alguns minutos antes. O aniversário dele que você estava na minha barriga, fomos para um hotel fazenda em Uberaba, a mamãe reservou e levou ele de surpresa, passamos lá só nós três, ah como foi gostoso aquele final de semana.
Nesse ano o papai Renato completaria 34 anos, tão novo né, tão cheio de vida, tão cheio de planos, sorriso fácil, um pai tão amoroso e tão presente, um marido tão querido e tão especial... e por tudo isso nós não deixamos passar em branco.
Pela manhã fomos levar as nossas flores... saindo de casa você me perguntou como era mesmo o nome daquele lugar que nós íamos, você nunca tinha perguntando, sempre se referiu como o jardim do papai. Mas eu te respondi: "cemitério". Você me olhou assustada e me disse que cemitério era lugar onde as pessoas morrem. Te expliquei então que era lugar onde colocávamos o corpo de quem já havia ido para o céu, mas que eu preferia chamar de "jardim do papai".
Chegando lá você olhava longe pela janela do carro... e disse que estava triste porque era aniversário do papai e você não queria que ele tivesse ido para o céu. Descemos com as nossas flores, e você já queria mexer na terra: "pode deixar mamãe eu sou muito boa em cavar", ah quanta pureza... Plantamos as flores, regamos e então você falou assim: "vamos cantar parabéns para o papai?" e cantamos... "Parabéns pra vc... Viva o papai!", rezamos, acho que mais com ele do que pra ele. E você se lembrou de uma oração: "mamãe aquela oração é, "e levai as almas todas para o céu", então é isso, as almas vão para o céu, mas aqui também tem almas."
Ah minha doce menina, tão pequena e tão sábia... Quando saíamos de lá você chorou no carro, disse que estava com muita saudades, apertou firme a minha mão e eu te disse que eu também estava com muitas saudades, que também é difícil pra mim.
À noite fomos à missa lá na Paróquia São Mateus onde o vovô Ivo é diácono, e depois fomos juntas, só nós duas comer comida japonesa, uma das prediletas do papai.
Fiquei encantada em ver você comer dessa vez, nossa como você estava à vontade com os palitinhos... "mamãe experimenta essa pra vc ver que delícia..."
Isso é que existe de verdade... o papai vive... vive em nós, vive no amor que sentimos por ele, vive em Deus e está conosco à todo momento, tenho certeza!!!


domingo, 1 de janeiro de 2017

Gratidão

Mais um ano encerramos para guardar nas nossas lembranças minha filha. Um ano emocionalmente difícil para nós, esse ano que você foi entendendo que o papai realmente não ia chegar. Nesse ano que você aprendeu a palavra morte, nesse ano você se encontrou com tantos "por ques".
Mas foi um ano em que a mamãe encerra muito grata à Deus. Grata porque Ele nos sustentou, nos ajudou à amar ainda mais uma à outra, nos uniu ainda mais, e nos fez descobrir grandes alegrias na nossa convivência.
Um ano que você cresceu muito, e eu fico te admirando dormindo, brincando, conversando... não tem mais bebê no seu rostinho.
Um ano de muito aprendizado, muito conhecimento, e você querendo entender tudo... "me explica mamãe". Na escola se saiu super bem, sua avaliação é excelente, seus amiguinhos te adoram, a professora (Tia Flávia) tem um carinho lindo por você, e na nossa família é a criaturinha mais amada.
Tivemos umas briguinhas né, alguns castigos, uns tapinhas... quase enlouqueci para você comer, mas pra mim filha foi um ano muito difícil, muitos atritos emocionais, algumas dificuldades de relacionamentos, me sinto perdida inúmeras vezes. Muitos foram os nossos pedidos de desculpas uma para a outra, muitas noites dormidas abraçadas ou segurando a mão uma da outra, muitas lágrimas nós secamos né minha pequena.
Um ano que continuamos à reinventar a vida, mas que em todos os dias tivemos o papai... nas lembranças, nos sonhos, nas fotos, nas nossas conversas e risadas, acredito que não vivemos nenhum dia sem ele...
A verdade filhota é que ainda temos muito o que aprender, pois essa ausência tão doída não vai sarar, nós vamos, com a graça de Deus. aprendendo à viver com ela todos os dias.
Vencemos mais um ano, Deus nos ajudou, disso não tenho dúvida, mesmo ainda responsabilizando Deus pelo que passamos, mesmo ainda culpando Ele pelo papai não estar mais aqui.
Vivemos intensamente alguns momentos não é mesmo?
Começamos 2016 em Foz do Iguaçu, uma viagem difícil para mim, mas prazerosa por te levar em lugares com tantas lembranças boas.
Tivemos umas férias de janeiro bem aproveitadas... amiguinhos, cinema, hotel fazenda, dentista pela primeira vez.
Você então fez 4 anos,,, aniversário da Frozen, na nossa casa, do jeitinho que você queria...
Você foi no parque siquerolli com a escola, duas vezes... e em todas a mamãe estava lá... rsrs.
A mamãe foi passear sem você pela primeira e única vez desse ano, rsrsr, fui no show do Lulu Santos, você lembra? Tio Neuber e a Tia Nanny vieram ficar contigo e você ficou acordada esperando a mamãe chegar...
Ah e essa minha princesa foi dama 3 vezes.... nossa como você gostou... Tio Neuber em julho, Tatá em setembro e Vinícius em dezembro.
Muitas notícias de bebezinhos deixaram você feliz, agora você vai multiplicar o seu amorzinho pela Yara com a Isabela da Laysa, com o nenê da Paula, com a Luiza da Tia Nádia, e também com o nenê do Leir... muitos nenês irão nascer no próximo ano...
Você também fez seu primeiro exame de vista e para surpresa da médica você leu as letras e recusou as figuras... orgulho da mamãe.
Fomos ao teatro algumas vezes, fez várias apresentações na natação...
Recebemos alguns amigos, fomos em Patrocínio poucas vezes... ir lá ainda é complicado, mas vamos superando... Ah e claro fomos em Uberaba, conhecer o museu dos dinossauros em Peirópolis... foi um ótimo passeio.
Filha, a mamãe faz com todo amor princesa, tudo o que eu puder, vou fazer para te trazer alegrias e para te ajudar na vida...
Pra mim foi um ano em que me perdi um pouco, resolvi deixar uma empresa de mais de 7 anos (Guardian) para termos mais qualidade de vida, e depois também deixei um outro trabalho porque a mamãe não gosta muito de mentiras, invenções e pessoas mesquinhas sabe... mas preciso de reencontrar, a mamãe sempre gostou de trabalhar. Mas meu amor, você é a minha prioridade...
Desde 2014 não passamos mais as festas de final de ano em Patrocínio, sempre, uma das duas estávamos lá, mas não me sinto mais à vontade.
Pra mim hoje, o mais importante é viver de verdade esses momentos com você, o Natal verdadeiro, e como é bonito ver como você entende, como você vive comigo esses momentos com oração e em paz... por mais difícil que seja filha, só vamos conseguir com a oração e buscando a paz!!!!
Por tudo isso somos gratas à Deus!!! Deus abençoe nosso próximo ano, nos dê sabedoria e paz, pois amor nos nossos corações não nos irá faltar!!!








quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Situações Semelhantes

Ao longo desses dois anos a mamãe leu várias histórias e vários relatos de pessoas que passaram por situações semelhantes à nossa.
Hoje encontrei essa e me chamou muito a atenção por várias semelhanças...
Lendo esse texto abaixo me dei conta de que fiz certo algumas coisas: não mudamos de cidade, nem de casa, como muitas pessoas me aconselharam na época... não desfiz das coisas do papai, não mudamos a nossa rotina, tudo para que você tivesse sempre um pouco dele por perto, para que maior medo não se concretizasse, o de você não se lembrar do papai.
Imagino que muitos dos questionamentos abaixo serão um dia seus...

“Foi bom que você não sentiu a morte do seu pai”

A jornalista Silvia Amelia de Araújo tinha apenas 2 anos quando seu pai faleceu. Diferentemente dos irmãos mais velhos, ela não compreendeu de imediato a notícia da morte mas, como explica nesse relato emocionante, sentiu a ausência tão fortemente que o luto acabou fazendo parte da formação de sua identidade.

Não sou boa em guardar aniversários. Já esqueci o de quase todas as pessoas que eu amo. Mas não me esqueço do aniversário do meu pai. Único que nunca comemorei.
O meu pai morreu aos 37 anos. De um infarto fulminante. Em uma manhã de Natal. Eu estava prestes a completar dois anos. Então não me lembro dele.
Já escutei de algumas pessoas “foi bom que você não sentiu a morte do seu pai”, se referindo aos meus irmãos estarem mais grandinhos, com 9 e 11 anos, e terem sido capazes de compreender de imediato a notícia da morte do nosso pai e eu não.
Agora imagine uma criança muito pequena que ama o pai, porque nessa idade já se sabe amar. E antes de entender a morte, já se entende o desaparecimento. Então, pra mim, naquela idade, foi isso, o meu pai que eu amava sumiu. Esse pai que tinha o costume de viajar para trabalhar um dia foi e não voltou mais. Não chegou para a nossa tradicional volta de Kombi pelo quarteirão. Nós mudamos de imediato de casa e de cidade. Ao mesmo tempo todo mundo ficou extremamente triste em volta, minha mãe principalmente. Claro que eu senti. Compreender e sentir são coisas diferentes.
Até hoje, já quase com a idade máxima que meu pai pôde ter, eu choro a morte dele. Quanto mais eu me aproximo dos 37, mais tenho noção do pouco tempo que ele esteve por aqui. Olho para os meus irmãos, já mais velhos do que foi o meu pai e vejo que são jovens ainda. Isso me dá a dimensão da tragédia que foi a morte repentina dele.
Minha mãe diz que meses depois que meu pai morreu eu achei uma foto de um homem barbudo no jornal e fiquei apontando admirada “ó, ó, ó” sem falar nada mais, como quem diz “olha aqui, é ele, finalmente o encontrei”. Meu tio Décio, o mais fisicamente parecido com meu pai, foi nos visitar e, conta minha mãe, eu quando o vi surgir no portão levantei eufórica! Meu tio percebeu que eu estava confundindo ele com meu pai e foi embora chorando para casa.
O luto fez parte da formação da minha identidade. Desde que tenho consciência de mim, eu sou uma menina órfã. Nas minhas primeiras lembranças estão os cochichos a minha volta “tadinha, ela não tem pai, o pai morreu”.
Alguns parentes distantes, que quase nunca encontram minha família, quando me veem dizem uma expressão engraçada: “ela é a bebezinha”. É que eu fiquei marcada na cabeça de todos como a neném órfã, que todos viram quando vieram para o velório do meu pai e que, dizem, foi o dia mais triste do mundo. Triste por ele ser jovem, triste por ter três crianças pequenas, o mais velho com uma doença mental. Triste porque ele e minha mãe eram apaixonados e porque ele vivia um momento de prosperidade no trabalho. Triste porque era dia de Natal. Triste.
Todo Natal eu conto o tempo da sua morte, todo 20 de outubro eu penso em quantos anos ele faria. E penso em como teria sido minha vida com ele. Como seria se ele existisse agora aqui. Minha mãe diz que eu puxei dele meu jeito de ser carinhosa com as pessoas. Será que nós, dois grudentos, viveríamos abraçadinhos?
Será que eu teria alguma brincadeira com ele de puxar seu bigode ou apertar sua barriga? Apelidos só nossos? Será que a gente ia discutir demais? O que ele iria achar da situação política do Brasil? Como seria ter visto as Copas do Mundo com ele? A gente tomaria muita cerveja juntos? E em quais filmes eu teria levado ele comigo ao cinema? E o que ele ia achar de eu me casar com um homem do cinema? Que avô ele seria para o Francisco e a Ana Clara, filhos da minha irmã? E para os filhos que ainda não tive?
Às vezes, quando estou triste, com a autoestima baixa, penso que meu pai falaria algo bom pra mim, de uma forma talvez exagerada e engraçada. Diria que estou linda mesmo quando outras pessoas estiverem me sugerindo emagrecer, por exemplo. Acreditaria que eu tenho talento. E me abraçaria com um força sufocante. Fantasio essa vida boa com ele. Contribui pra isso que o meu pai foi um cara legal, carismático e generoso. As pessoas se lembram dele com muito carinho, com brilho nos olhos. Vários homens já me falaram “o seu pai foi o melhor amigo que eu tive”.
Esse foi o legado que ele me deixou. Tento de coração ser uma boa amiga para os meus amigos. Perder um pai jovem me faz também ter muita consciência de que a morte existe e ela pode vir a qualquer hora. Até no momento mais feliz da sua vida.
Ficou ainda pra mim o exemplo de amor e companheirismo dele e minha mãe. Mas não consigo fantasiar que ele me vê agora. Isso eu não consigo. Essa é uma forma que as pessoas consolam a gente. De onde ele está, ele está vendo você. Não consigo acreditar nisso. Gostaria muito. Mas só penso que perdi meu pai, perdi a chance de conhece-lo, de conhecer também seus defeitos, de ter do que reclamar, de ter historias com ele para me lembrar.
Minha irmã, quando criança, perguntou no catecismo como seria morrer velha e chegar ao céu e encontrar o pai jovem. A catequista disse que a alma não tinha idade ou aparência.
Se céu existir, talvez um dia a gente se abrace e comemore um aniversário dele juntos. Espero que almas possam se abraçar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

E já se foram 2 anos...

Sabe filha, a mamãe nem acredita que já se passaram dois anos sem o papai aqui com a gente... continuo repetindo que parece que foi ontem. Esses dias não estou muito bem, há meses não ficava tão triste, tão estressada. Mas as datas mexem demais comigo e além de tudo se aproxima o Natal... Ah filha como a mamãe gostava no Natal... hoje me sinto perdida e sem vontade de fazer nada.
Nesses dois anos você foi para a escola, continuou a natação, fez várias apresentações inclusive; fomos para a praia, você conheceu as cataratas, você foi dama por três vezes... casamos o tio Neuber, a Tatá, o Vinícius... fizemos algumas fotos, passeamos com os amigos... você já escreve seu nome, conhece todas as letras, os números e faz conta de cabeça; mas não vemos mais o papai com a gente. 
Reformamos a nossa casa, doamos seu quarto de bebê, algumas roupas suas consegui doar, poucas, a maioria ficaram guardadas no sonho de que você tivesse uma irmã. Assim como as coisas do papai... estão praticamente todas aqui, consegui doar pouquíssimas coisas, talvez na esperança de que ele chegasse... 
Uma mistura de "ufa, conseguimos, vencemos dois anos" com "mas e agora?". Juro que às vezes não acredito e ainda penso que o pesadelo vai acabar. Dói muito, uma dor sem remédio, vamos vivendo com ela, sentindo ela, falando dela entre nós duas.
Hoje fiquei pensando em como estaria a nossa vida se o papai estivesse aqui... Possivelmente estaríamos morando em outra casa, ou até mesmo em Patrocínio, você ia gostar né...
Talvez você teria um irmão, o João Vitor; ou uma irmã, a Ana Laura, ou os dois; gêmeos como o papai queria ter... um cachorrinho pra brincar com vocês, se tivesse espaço externo. O papai não gostava muito de animais dentro de casa.
Talvez a mamãe estaria grávida e novo... já pensou? Eu penso sempre... ah quanta saudade daquele barrigão e de sentir aquela vida dentro de mim... 
Não sei em que eu estaria trabalhando ou se estaria cuidando apenas das crianças como estou agora com você... confesso que pra mim essa é a parte menos importante.
Mas uma coisa eu imagino, estaríamos mais felizes, choraríamos menos... a nossa família estaria aqui. A verdade filha é que são muitos talvez, fácil é imaginar um sonho; um sonho que ficou pela metade e que judia tanto de mim.
Hoje também falamos sobre nós duas, conversamos sobre você não me obedecer quando estamos com seus avós, e acabei de falar como é complicado estar sozinha, é difícil perder o termômetro. Sei que às vezes estrapolo demais por medo de relaxar na sua educação, e sabe o que você me disse? "Eu confio em você mamãe, você vai ser boa", ah meu coração não aguenta tanta fofura, tanto amor.
Minha amada queria muito mesmo que esses dois anos tivessem sido diferentes, não só esses como todos os outros que virão, me esforço muito para deixá-los mais amenos, mais brandos, mais cheios de amor. Muitas vezes passo por cima dos meus limites, do meu orgulho e enfrento até situações que me deixam mal, só pra ver o sorriso lindo no seu rosto.
Obrigada por me ajudar todos os dias, eu também confio em você e sei que vai ser muito boa. E com a ajuda de Deus, da nossa Mãezinha Imaculada e do papai lá em cima, vamos seguindo como você me disse quando estávamos rezando, "você cuida de mim mamãe e eu cuido de você"!